Diálogo entre o original e o novo by Tim Greer - Revista By

Diálogo entre o original e o novo by Tim Greer

Desde 1988, Tonkin Zulaikha Greer, Tim Greer, tornou-se especialista na reutilização de materiais de construção existentes e na melhor maneira de harmonizar o passado e o contemporâneo em seus projetos. Através de restaurações como Hyde Park Barracks, o National Arboretum Canberra, Carriageworks e Paddington Reservoir Gardens, tornou conhecidas certas características de seu design: caixas volumétricas, teto abrangente, uma paleta restrita de materiais, destruição do projeto existente ao mesmo tempo em que revela, em uma nova proposta, detalhes que já existiam na construção.

MH: EM SUA TÉCNICA, O EDIFÍCIO EXISTENTE É A BASE DA SELEÇÃO DE UMA PALETA DE MATERIAIS OU ESSA ESCOLHA É UMA PREFERÊNCIA ESTÉTICA?
Tim Greer: Estamos interessados em arquitetura como um objeto físico, uma experiência que você explora, e nossos edifícios são muito sobre “o que você vê é o que você obtém”. A materialidade da arquitetura é a voz da forma. Há uma grande quantidade de opções modernas disponíveis para os arquitetos no momento, mas estamos mais interessados em materiais intemporais do que sintéticos e como eles ligam originalmente a cidade e a história. Isso também faz parte de uma maneira de tentar ter um diálogo muito direto com a cidade. Quando você pensa sobre o que resta na cidade ao longo do tempo, são as partes reais dos edifícios: tijolos, madeira, concreto. O residual, se você quiser, e é isso que nós admiramos.

MH: EM SUAS ESCOLHAS HÁ UM OPOSTO BINÁRIO INTERESSANTE ENTRE MATERIAIS CONSTRUTIVOS CONTEMPORÂNEOS CONTRA 0S MATERIAIS TRADICIONAIS. VOCÊS COMPENSAM PROPOSITADAMENTE AS PALETAS DE MATERIAIS PARA QUE ESTES OPEREM UNS CONTRA OS OUTROS?
Tim Greer: Em Paddington [Reservoir Gardens, 2009] identificamos os três materiais de construção originais: tijolos, ferro forjado ou ferro fundido e madeira. O local era essencialmente uma ruína, pensávamos que o novo edifício deveria ter o mesmo número de novos materiais para que não sobrepusesse a composição original. Então, sim, é um uso binário de contraposição, nas versões contemporâneas. Neste caso, usamos um concreto pré-moldado em oposição ao tijolo, aço contra colunas de madeira e alumínio como o novo detalhe no edifício. Estávamos tentando conversar com o edifício original. Curiosamente, há um edifício de apartamentos em Jackson’s Landing, que é um bom exemplo, também. Havia anteriormente um prédio industrial no local
e, por isso, propusemos recuperar algumas das qualidades industriais, embora com um uso completamente diferente. Nós não pretendíamos criar um prédio industrial em termos de sua tipologia, mas, sim, de sua materialidade, sua franqueza e característica rústica de fábrica – é neste ponto onde os materiais originais dialogam com o novo.

MH: O “NÚCLEO” DE QUALQUER PROJETO É O CONTEXTO E A HISTÓRIA DO LOCAL?
Tim Greer: Sim, mas o “contexto” nem sempre é apenas sobre as condições físicas, mas também sobre a dimensão histórica e humana do local, a quarta dimensão – o tempo. Você pode voltar através da história e refinar o que aconteceu ali, resgatar, entendendo assim a filosofia de design do edifício original, nos anos 1890, 1930 ou 1960. Claro, isso se traduz no que a cidade ou a
comunidade pensava naquele momento.

MH: COMO VOCÊ CRIA A ORDEM COMPOSICIONAL E FUNCIONAL EM UM PROJETO SEM PERDER A IDENTIDADE INERENTE AO EDIFÍCIO?
Tim Greer: Se a cidade é vista como uma compilação de tempo, então precisamos representar nosso período com nossas conversas cristalizadas em arquitetura. Em 100 anos, temos um tom específico. Precisamos reconhecer o nosso próprio período em vez de imitar outro. Se esse é o ponto de partida, há então uma herança de um edifício e seu conjunto de valores culturais.
Na Carriageworks [Sydney, 2006], por exemplo, estabelecemos um diálogo forte entre passado e presente. Era originalmente uma fábrica. As empresas que ocuparam o prédio, discutiram a importância de um centro de artes cênicas contemporâneo, como um “anti-teatro” – o outro extremo do espectro em relação à Ópera de Sydney. Conceitualmente, reunimos essas duas
noções: o “anti-teatro”, que chamamos de teatro não-hierárquico e a tipologia de fábrica. Então, os estilos foram distribuídos por todo o piso da fábrica, não hierarquicamente, permitindo que o público se movesse entre eles. Estávamos olhando para o uso contemporâneo e histórico ao mesmo tempo. Assim, ao estabelecer ou reconhecer duas ordens arquitetônicas diferentes em harmonia você está gerando tensão. Já em Paddington,a narrativa estabeleceu-se e baseou-se na idéia de que o novo funciona dentro do original. As formas abobadadas, por exemplo, foram conceitualmente derivadas da articulação original da argamassa de tijolos – um processo de translocação.

MH: ALDO ROSSI SUGERE QUE O EDIFÍCIO SINGULAR É UM PONTO DE ORIGEM E, QUANDO MULTIPLICADO, SE TORNA UMA MASSA DE EDIFÍCIOS. E AO SE TORNAR UMA MASSA, VOLTA AO SINGULAR: UMA CIDADE. VOCÊ ACHA QUE UM ELEMENTO SINGULAR PODE AFETAR O DISCURSO ARQUITETÔNICO?
Tim Greer: Se você reduz algo a um material singular, o destaque é maior, grita. Ao trabalhar com foco neste material, permite um quadro conceitual. O detalhamento e as condições desse material realmente levarão a uma série de resultados de design. Nós, certamente, deixaríamos o material ditar o detalhamento do projeto, em oposição à tentativa de sobrepor um sistema de detalhamentos acima do material.

MH: VOCÊ DIRIA QUE TEM UMA ASSINATURA ESTILÍSTICA ABRANGENTE?
Tim Greer: Não pretendemos criar uma assinatura. Mas eu suspeito que, por padrão, estamos criando. Buscamos o que sustenta tudo isso, nós gostamos de pensar que é a metodologia de design que está criando a assinatura. A assinatura, até certo ponto, é o subproduto; Estamos mais interessados no que está no cerne do projeto.

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