Mudando o cenário de São Paulo com Facundo Guerra

Facundo Guerra é um dos empreendedores mais bem sucedidos atualmente. Engenheiro de formação, é também mestre e doutor em Ciência Política. Dono de diversos empreendimentos, tem mudado o cenário de São Paulo com seus projetos e ideias.

– Como se dá o processo de ressignificar espaços urbanos?
Não tem uma fórmula pra isso, às vezes eu tenho o projeto e preciso encontrar o espaço, como foi por exemplo o Blue Note e o Conjunto Nacional. Eu já conhecia o imóvel, só não tinha ideia do que colocar dentro dele. Quando vieram me oferecer o Blue Note eu pensei “Eu já sei onde encaixá-lo, e é ali naquele imóvel do Conjunto Nacional”. Outras vezes eu me deparo com o espaço e começo a procurar o conteúdo que pode ocupá-lo e ressignificá-lo. Às vezes é o imóvel que me provoca a procurar um tipo de conteúdo, como estou fazendo com o Cine Ipiranga, eu quero transformá-lo em um templo nerd ou geek. Para isso, eu tenho que ter um mapa mental da cidade de um lado e um mapa mental de conteúdos contemporâneos do outro e tentar fazer esse match.

– O que te faz garimpar locais como o centro de São Paulo para serem transformados em empreendimentos?
Na verdade eu não garimpo os locais, pois essa região do Centro, da Paulista até a Sé, é onde eu cresci e sempre vivi desde que vim para o Brasil, são lugares que conheço como a palma da minha mão. Não estou aqui para explorar algo, eu já sei o que está abandonado e o que pode se aproveitar de alguma forma. Por eu andar muito a pé ou de moto pelo centro, tenho um mapa mental, com cada rua e seus elementos, isso me ajuda a ter em mente os imóveis que precisam de conteúdos e onde encaixá-los.

– Diante da maior metrópole da América Latina, a inclusão de diversos grupos sociais no coração da cidade torna-se necessária. Como é vista a necessidade de integração entre metrópole, história e zonas periféricas?
O centro é o local mais democrático da cidade e, quando nós falamos de metrópole, história e zonas periféricas, essa já é a realidade do Centro atualmente. Quando fala-se de um centro, como o de São Paulo, nós temos dois tipos dele: o centro desejo e o centro real. O centro desejo é um lugar que nós almejamos, algo meio retrofuturista ou futuro do pretérito, que é unir o contemporâneo ao clássico. O centro real, é aquele do dependente químico, onde a periferia vem trabalhar, sujo e degradado. O que estamos tentando proporcionar agora é que exista aderência à esse centro, que se viva o centro da cidade, pois é uma importante representação de um eixo, uma identidade de todas as regiões da cidade. Todo centro, de alguma forma, destila a cidade e a concentra esteticamente onde começou a nossa história. Então esse centro desejo, com o passar dos anos, está se aproximando do centro real, mas ainda irá demorar muito tempo.

– Diante das suas experiências com direção artística no município de São Paulo, você pensa em abrir uma galeria com a marca expoente do Grupo Vegas?
Não, eu não penso, pois não me interesso muito pela arte como objeto. Todas as minhas investigações artísticas eu deixo para o Farol Santander, que são os andares de arte imersiva, um tipo de caminho estético e uma proposição artística que me agrada mais. Pensar numa galeria de arte com apenas quadros e artistas, nada que é muito tradicional me interessa, eu prefiro encontrar novos formatos do que apostar naqueles que já estão estabelecidos, se não há um componente de risco ou de nova proposição estética, eu não me interesso muito. Galerias de arte me causam um pouco de tédio, não gosto nem de frequentar galerias de arte, quem dirá ter uma.

– Vista a integração do espaço histórico, a comunidade e a diversidade, como você enxerga seu papel diante da busca de integração dos grupos sociais no centro de São Paulo?
Não acredito que eu tenha um papel em si, mas um papel simbólico que representa um redimensionamento do que é a cidade, devido a minha exposição midiática por conta das redes sociais. Não estou fazendo a minha parte sozinho, existem muitos empreendedores pelo centro abrindo seus restaurantes e cafés. Acredito que sou uma peça dentro de um zeitgeist que está tentando recuperar um centro por causa da memória afetiva que ele tem na maior parte das pessoas que vivem em São Paulo.

– Quais são os maiores desafios quando se trata de trabalhar com um local tombado pelos órgãos de defesa do patrimônio?
São as limitações impostas pelos próprios órgãos de defesa as quais, na minha opinião, são ótimas pois me obrigam a ser criativo. Então se por um lado ela é limitadora, por outro lado, ela te obriga a ser mais criativo e a procurar soluções mais audaciosas. Trabalhar dentro de um limite engessado me permite ser potente dentro dessas imposições. Eu me aproprio da narrativa histórica do lugar, para depois contar uma nova proposição e narrativa contemporânea. Isso me ajuda a construir algo a partir de uma história que foi contada e pré-determinada.

– Numa entrevista em 2015, você disse “Uma cidade que não tem horizontes, não tem estrelas…”, quando investiu na abertura de um bar na cobertura do Conjunto Nacional, o Blue Note, foi o momento de São Paulo se encontrar junto as estrelas?
Na verdade, o Blue Note não te dá uma estrela ou um horizonte. Ele é uma varanda para a avenida Paulista, que é um novo velho símbolo da cidade de São Paulo, que antes estava impotente e agora está vibrando, virou cartão postal da cidade novamente, devido a ciclofaixa e a “Paulista Aberta” aos domingos. Não acredito que teremos estrelas em São Paulo, devido a muita poluição e luzes, é uma cidade onde as estrelas estão para dentro. As estrelas estão dentro de si e não no céu.

– O livro “Eixo Z” traz novas perspectivas de São Paulo. Quais os diálogos que você quis propor com as fotografias?
No livro Eixo Z eu pensei em como eu conseguiria construir perspectivas de São Paulo que não são óbvias. A fama de que São Paulo é uma cidade feia é algo que eu contesto, pois vendo do ponto de vista clássico de harmonia e simetria tudo bem, mas a ideia de belo tem muitas interpretações. Eu gosto da ideia de belo pelo conceito japonês de “wabi-sabi”, do imperfeito, do incompleto e do caos, e então São Paulo torna-se uma das cidades mais bonitas do mundo ao meu ver. Eu quis mostrar que pode se encontrar simetria em São Paulo, mesmo que em meio a todo esse caos, tanto simbólico como estético. Eu construí esse diálogo entre arquiteturas que não são óbvias e não imediatamente reconhecíveis, que às vezes vem por contraposição ou por continuidade. E somente o drone pode possibilitar essa liberdade de buscar as simetrias e os ângulos.

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